domingo, 1 de fevereiro de 2026

Quando até um poste parece saber amar melhor

 Você dizia para o mundo que namorava.

Mas, dentro daquela relação, você era invisível.

Não por falta de presença, mas por excesso de negação.

Você estava ali — e, ainda assim, era tratada como uma ausência.

Era escondida.

Dos amigos.

Da família.

Da vida que deveria ser compartilhada.

Ele dizia que odiava datas.

Que TPM era frescura.

Que flores eram coisa de idiota.

E você aceitava.

Não porque concordava, mas porque acreditava que amar era compreender o outro — mesmo quando isso custava você mesma.

“Eu sempre fui assim”, ele dizia.

E você se moldava, achando que amor era adaptação.

Mas quando queria justificar o pouco que oferecia, dizia que fazia diferente pelas ex.

E ali nascia a dúvida silenciosa:

Será que o problema sou eu?

Vieram então as frases que não pedem resposta — apenas ferem:

“Você não serve para ser mãe da minha filha.”

“Você não serve para ser mãe.”

“Você não serve para apresentar à minha família.”

“Você é empoderada demais.”

“Tenho medo da minha filha ficar assim.”

“Tenho medo dela não ser submissa.”

E, contraditoriamente, no meio disso tudo, ele dizia que te amava.

Amava enquanto anulava.

Amava enquanto diminuía.

Amava enquanto seus ouvidos sangravam em silêncio.

Hoje, ao ouvir histórias de amor — casais que dizem ter se apaixonado no primeiro dia, que constroem anos, família, parceria — você não sente inveja.

Sente questionamento.

Você se pergunta se é você.

Se foi verdadeira demais.

Se quis demais.

Se desejar carinho, presença e pequenos gestos virou exigência exagerada.

E então surge a pergunta que parece piada, mas carrega exaustão:

Será que um poste seria um excelente namorado?

Porque o poste não invalida sentimentos.

Não chama cuidado de frescura.

Não promete amor enquanto entrega desprezo.

O poste não te faz duvidar do seu valor.

Você começa a perceber que talvez não estivesse pedindo demais.

Talvez estivesse pedindo ao lugar errado.

Porque tudo o que você esperava, você oferecia.

Você fazia questão dos detalhes.

Dos pequenos momentos.

Da presença que constrói.

E talvez o erro nunca tenha sido querer o básico.

Talvez tenha sido insistir onde o amor vinha pela metade.

Num mundo de gente emocionalmente desinteressada, quem sente profundamente parece exagerado.

Quem quer reciprocidade parece carente.

Quem não aceita migalhas vira “difícil”.

Mas a verdade é simples e incômoda:

amor não deveria doer desse jeito.

Se um poste parece uma escolha melhor, não é porque você desistiu do amor.

É porque você cansou de relações imóveis — que não se movem, não crescem, não cuidam.

E não, você não está errada.

Você só está inteira demais para quem nunca aprendeu a amar inteiro.

O problema nunca foi você.

Foi tentar florescer onde nem água havia.

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