quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Quando o lar se desmonta, mas a alma permanece

 Quando o lar se desmonta, mas a alma permanece

Mudar é uma experiência curiosa.

A gente muda de cidade, muda de estado, muda de bairro.

Muda de fase, de ritmo, de silêncio.

Mas, mesmo sem mudar de país, às vezes parece que atravessamos fronteiras internas enormes.

Existe um momento específico da mudança que sempre me atravessa:

quando a casa está desmontada.

Sem quadros, sem sofá no lugar, sem cheiro conhecido.

Ali, no vazio das paredes, surgem memórias.

Lembranças daquilo que um dia foi lar.

Foi abrigo.

Foi refúgio.

Sempre digo que minha casa é meu maior templo.

É onde tiro as armaduras do mundo.

Onde posso ser frágil, inteira, humana.

Por isso, mudar dá medo.

Não é só o novo endereço — é o novo silêncio, a nova energia, o desconhecido.

O medo não vem porque somos fracos.

Vem porque aquilo que ficou para trás foi importante.

Porque ali houve vida.

Houve história.

Houve amor, mesmo quando também houve dor.

Quando tudo é novo, o coração fica cauteloso.

Ele anda devagar pelos cômodos, testando o chão, observando a luz, sentindo o ar.

Como quem pergunta em silêncio:

“Será que aqui também vou conseguir descansar?”

Mas há algo que o tempo ensina com delicadeza:

o lar não está fixo no endereço.

Ele se move conosco.

Somos nós que transformamos paredes em abrigo, espaços em refúgio, casas em templo.

Cada mudança é um recomeço disfarçado de caos.

Uma chance de reorganizar não só os móveis, mas a alma.

De decidir o que fica, o que vai, o que não cabe mais.

E, aos poucos, o novo espaço aprende nosso nome.

Nosso jeito de andar descalça.

Nossos silêncios longos.

Nossos rituais pequenos.

Até que um dia, sem aviso, a gente percebe:

virou lar.

Porque o verdadeiro templo não fica para trás.

Ele caminha.

E enquanto estivermos inteiras dentro de nós,

sempre haverá casa.

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