Tem coisas que a gente não faz porque não pode.
E tem perdas que acontecem justamente aí — nesse limite invisível entre o que se pede e o que se suporta.
Não é drama.
É constatação.
Às vezes duas pessoas se perdem sem erro, sem vilão, sem cena final.
Como um barco que continua boiando,
mas já não sabe mais pra onde aponta o leme.
A cidade segue acesa.
Neon funcionando, rádio tocando música antiga,
alguém cantando verdades que parecem não ser de ninguém.
E mesmo assim, falta luz.
Quando falta luz, o invisível aparece.
A ausência ganha volume.
O que estava abafado começa a falar alto demais.
Tem encontros que não aquecem, mas queimam.
Não duram, mas deixam marca.
Você reconhece a solidão do outro porque ela conversa com a sua sem pedir apresentação.
Nada ali é simples.
Tudo é precipício disfarçado de escolha.
E a queda, curiosamente, parece familiar.
O problema não é cair.
É acordar no dia seguinte tentando entender
em que momento aquilo virou hábito,
em que ponto a lucidez virou cansaço.
O fogo ilumina.
Ilumina muito.
Mas por pouco tempo.
Depois apaga — e ainda leva alguma coisa junto.
Talvez seja assim com quase tudo:
pessoas, promessas, certezas.
No fim, tudo vira luz
ou memória
— às vezes as duas coisas ao mesmo tempo.
E toda vez que algo nos falta,
a gente aprende a enxergar melhor.
Não porque ficou mais forte,
mas porque ficou mais atento.
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