domingo, 25 de janeiro de 2026

Quando falta luz

 Tem coisas que a gente não faz porque não pode.

E tem perdas que acontecem justamente aí — nesse limite invisível entre o que se pede e o que se suporta.

Não é drama.

É constatação.

Às vezes duas pessoas se perdem sem erro, sem vilão, sem cena final.

Como um barco que continua boiando,

mas já não sabe mais pra onde aponta o leme.

A cidade segue acesa.

Neon funcionando, rádio tocando música antiga,

alguém cantando verdades que parecem não ser de ninguém.

E mesmo assim, falta luz.

Quando falta luz, o invisível aparece.

A ausência ganha volume.

O que estava abafado começa a falar alto demais.

Tem encontros que não aquecem, mas queimam.

Não duram, mas deixam marca.

Você reconhece a solidão do outro porque ela conversa com a sua sem pedir apresentação.

Nada ali é simples.

Tudo é precipício disfarçado de escolha.

E a queda, curiosamente, parece familiar.

O problema não é cair.

É acordar no dia seguinte tentando entender

em que momento aquilo virou hábito,

em que ponto a lucidez virou cansaço.

O fogo ilumina.

Ilumina muito.

Mas por pouco tempo.

Depois apaga — e ainda leva alguma coisa junto.

Talvez seja assim com quase tudo:

pessoas, promessas, certezas.

No fim, tudo vira luz

ou memória

— às vezes as duas coisas ao mesmo tempo.

E toda vez que algo nos falta,

a gente aprende a enxergar melhor.

Não porque ficou mais forte,

mas porque ficou mais atento.

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