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Discutível perfeição
Não me idealize.
Porque quando você cria uma versão perfeita de mim,
qualquer erro vira crime
e qualquer dor vira exagero.
Eu não sou santa.
Não sou inabalável.
Não sou essa imagem confortável que você quer usar
pra não ter que lidar com quem eu sou de verdade.
Eu sabia que a queda era grande.
Mesmo assim, eu pulei.
Porque amar também é isso:
acreditar que alguém vai segurar a sua mão.
Existe um grito preso na minha garganta.
Ele não sai bonito.
Ele não sai calmo.
Às vezes ele sai em palavras duras.
E eu sei:
essas palavras machucam.
Ferem.
Deixam marcas.
Mas elas não nascem da maldade.
Elas nascem da exaustão.
Da ansiedade.
Do cansaço de estar sempre à beira do penhasco,
tentando não cair sozinha.
Eu ajudei.
Eu estive ali.
Quantas vezes eu estive ali?
Segurei mãos.
Enxuguei lágrimas.
Fui colo quando ninguém mais quis ser.
Quando o outro escorregava, eu puxava.
Quando o outro fraquejava, eu ficava.
Quando o outro tinha medo da queda, eu dizia:
“eu estou aqui”.
Mas quando fui eu à beira…
quando o chão sumiu sob meus pés,
quando pedi colo,
quando pedi pra ficar comigo,
a mão foi solta.
E não bastou soltar.
Houve empurrão.
Eu falei da ansiedade.
Falei do medo.
Falei do quanto estava difícil segurar tudo sozinha.
E ouvi que eu exagero.
Que eu falo demais.
Que eu machuco.
Que eu sou intensa demais.
Como se sentir fosse defeito.
Como se amar cansada fosse loucura.
Sim, em crise de ansiedade,
as palavras que escapam de mim são duras.
Elas cortam.
Elas ferem.
Mas antes delas,
houve pedido.
Houve choro contido.
Houve tentativa de não cair.
O problema nunca foi o que eu senti.
Foi eu não conseguir sentir em silêncio.
Prometem entender.
Prometem mudar.
Prometem cuidar.
Mentem.
Porque no fundo esperam
que eu seja forte o tempo todo,
que eu não desmorone,
que eu não caia,
que eu atravesse o penhasco
sem nunca pedir ajuda.
Eu vivo maquiada, sim.
Arrumo o sorriso, sigo em frente, faço parecer que está tudo bem.
Mas essa armadura pesa.
E armaduras não impedem quedas —
só fazem doer mais quando a gente cai.
A princesa também sente.
Também chora.
Também sofre.
Também escorrega.
Eu prefiro a verdade
a essa discutível perfeição.
Eu tive que desaprender
a gostar tanto.
Tive que aceitar que amar sozinha
é cair de um penhasco
segurando uma mão que já não está mais ali.
Eu sou humana.
Eu erro.
Eu tenho ansiedade.
Eu falo duro quando estou no limite.
Mas isso não me torna louca.
Me torna alguém que tentou até o fim.
E agora eu sigo meu caminho
não porque não doeu,
mas porque continuar ali
era cair todos os dias
esperando que alguém me segurasse.
Porque ninguém nesse mundo é de ferro.
E eu não vou mais me jogar de um penhasco
por quem não estende a mão.
🖤
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