Acordar antes do sol
Ela acordou antes do sol.
Não porque o despertador tocou, mas porque “o mundo girava em mim” e algo dentro dela não dormia mais.
O quarto ainda estava em silêncio, mas o peito em desordem. “Cartas no bolso, sonhos na mão”, e aquela sensação estranha de que nada era simples — e ainda assim, era o início. Sempre é.
Ela caminhava sem mapa. “Caminhei sem mapa”, porque nunca soube andar por caminhos prontos.
Diziam que ela era intensa demais.
Difícil demais.
“Inamorável”, talvez.
Ela já tinha ouvido essa palavra antes. Soava como uma sentença num mundo que acredita que pessoas são substituíveis, onde tudo é rápido demais para sentir. Olhando ao redor, ela via mesas cheias e conversas vazias, olhos presos às telas, relações medidas em status. “Olhe ao seu redor, não fazemos parte disso, não somos rasos.”
E ela realmente não fazia.
Enquanto outros passavam apressados, ela parava. Observava. Sentia. Não era solidão — “não é solidão, é espaço”. Espaço para existir sem se explicar, para ir além do cais, para deixar o medo para trás.
Talvez por isso as músicas do 4RTZO a atravessassem tanto.
Elas não gritavam.
Elas ficavam.
Falavam de quem cai e levanta. “Eu corri, eu caí, me levantei.”
De quem muda mais do que imagina. “Em um ano, eu mudei mais do que pensei.”
De quem dança quando tudo treme. “Se o mundo tremeu, eu dancei.”
De quem continua, mesmo quando dói. “Se doeu, eu continuei.”
E ela estava atravessando tudo isso.
Mudou de casa.
Mudou de ciclo.
Mudou por dentro.
O passado ainda piscava, mas já não prendia. “As luzes dançam, o passado ficou, não vai te prender.” Entre o digital e o real, entre memórias e códigos, ela aprendeu que “meu coração aprendeu a navegar.”
Amadurecer, ela descobriu, não era endurecer. Era aprender a ficar de pé por si mesma. “Entre passos perdidos e portas fechando, eu aprendi a ficar de pé por mim.”
E então veio o relacionamento.
Não como salvação, mas como espelho. Ali, ela entendeu que “não foi acaso, não foi só razão, foi conexão.”
Que amar não é se conter. “Eu não quero amar pra me prender.”
Que querer voar não é fugir. “Não é fugir, é escolher.”
Houve quedas. Houve silêncio. Houve aprendizado.
Nada foi em vão.
Ela percebeu que não era difícil de amar — era profunda demais para relações rasas. “Meu caminho nasce sozinho.” Inteira demais para caber em prisões emocionais. “Quero asas abertas pra explorar.”
O erro ensinou mais que o silêncio do não tentar.
O medo virou faísca. “O que era medo virou faísca.”
A dúvida virou querer.
Quando o chão sumia, ela aprendia a pousar. “Se o chão some, eu sou quem aprende a pousar.”
Quando o real falhava, ela atravessava. “Se o real começa a falhar, eu aprendo a atravessar.”
Hoje, ela acorda antes do sol sem pressa.
“Não preciso correr, meu tempo chegou.”
Se ninguém notar, tudo bem. “Eu me vi chegar.”
Ela sabe quem é.
E se isso a torna invisível num mundo raso, tudo bem.
Ela não é inamorável.
Ela é chama. “A chama que não apagou.”
A história não começa no fim.
“Ela começa agora, quando eu decido atravessar.”
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