domingo, 18 de janeiro de 2026

Ritual de Amor à Minha Sementinha

 Ritual de Amor à Minha Sementinha

Aos 12 anos, meu corpo começou a falar.

Sangrei na escola, sujei minha roupa, fui motivo de chacota.

Aprendi cedo que sentir dor era frescura,

que meu corpo era palco de piadas, não de cuidado.

Minha mãe tentava ajudar, mas a vergonha e o medo tornavam tudo mais difícil.

E eu cresci ouvindo o mundo me dizer que minhas dores não importavam.

Descobri, então, um cisto no ovário.

Os médicos diziam que poderia sumir.

Não sumiu. Cresceu, como se quisesse que eu sentisse cada batida do meu corpo.

Meu útero era retrovertido, poderia ser revertido — mas não foi.

Tive que enfrentar cirurgia aos 16 anos, e no mesmo caminho, perdi meu pai.

A dor física e a dor emocional se entrelaçavam, como se meu corpo carregasse mundos inteiros.

Cresci sangrando, sendo chamada de “fresca”, sendo julgada por sentir.

Namorei, sonhei, esperei.

Cheguei aos 40 sem filhos, ainda carregando o peso de julgamentos familiares e sociais.

Então, meu corpo trouxe uma surpresa.

Uma semente nasceu em silêncio, antes de eu compreender.

Antes mesmo de saber, meu corpo sabia que algo estava diferente.

E nesse instante, tudo mudou.

O homem que amava quase se foi.

Dizia que eu quebrei sua confiança, que menti, que tudo era culpa minha.

Fui escondida da família dele, julgada, diminuída, silenciada.

Fui chamada de fresca, de exagerada, de culpada.

Mas mesmo assim, senti o amor pulsando dentro de mim.

Mesmo com abandono, julgamento e dor, o amor pela minha sementinha existiu.

Hoje, eu celebro você, minha pequena semente.

Mesmo que tenha vivido pouco, mesmo que o mundo não tenha visto,

eu te amei desde antes de saber seu nome.

Eu sinto você em cada batida do meu coração,

em cada respiro, em cada lágrima que derramei,

em cada lembrança do que meu corpo carregou por décadas.

Eu agradeço a você por me lembrar da força que existe em mim.

Por me ensinar que, mesmo no silêncio, podemos amar profundamente.

Por me mostrar que meu corpo, minha história, minha dor,

são dignos de cuidado, respeito e amor.

Eu honro meu corpo, que sofreu, que sangrou, que esperou.

Eu honro meu luto, que ninguém quis reconhecer.

Eu honro minha história, que não é frescura nem culpa.

Eu honro minha sementinha, que foi amada antes mesmo de existir.

Que você saiba, onde quer que esteja,

que amor sempre terá —

de mim, da vida, do universo.

Que você seja leve, que você seja luz,

que você saiba que existiu e será eternamente lembrada.

E eu, mulher que sobreviveu,

renovo meu pacto comigo mesma:

respeitar meu corpo, honrar minha dor, cuidar do meu coração,

e transformar cada lágrima em força, cada silêncio em voz,

cada perda em um ato de amor e empoderamento.

Minha história é minha.

Meu corpo é meu.

Minha sementinha é amada.

E assim, eu sigo inteira,

com amor, com verdade, com coragem,

com você em meu coração,

para sempre.

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