segunda-feira, 30 de março de 2026

Onde o Tempo Para, a Saudade Respira

 Eles se encontraram num lugar onde o tempo não corria… ele só respirava.


Era como se o mundo tivesse sido colocado em pausa — carros imóveis, vento suspenso no ar, pessoas congeladas no meio de pensamentos que nunca terminariam. Mas eles… eles podiam se mover.


Ele ainda usava o cheiro de pão quente nas mãos. Padeiro de madrugada, produtor de sonhos à noite. Criava massas e batidas com a mesma intensidade — sovava sentimentos como quem entende que algumas coisas precisam de força pra crescer.


Ela vinha de outro ritmo. Doutora das dores invisíveis, terapeuta de almas cansadas, fisioterapeuta de corpos que já tinham desistido de si. Sabia tocar onde ninguém via… e curar o que ninguém sabia nomear.


Quando os olhos deles se cruzaram, o silêncio fez barulho.


— Não vou negar… dá saudade — ele disse, como se estivesse terminando uma conversa que começou em outra vida.


Ela respirou fundo. Sabia exatamente do que ele falava. Porque também sentia.


— Eu entendo…


E entendia mesmo. Não era saudade só de toque. Era saudade de presença, de riso no meio do caos, de mãos que sabiam exatamente onde apertar — no corpo… e na alma.


Ele se aproximou devagar, como quem respeita o espaço… mas não consegue evitar o desejo.


— Mas é preciso — ele completou. — Tudo isso.


Ela franziu levemente o olhar, como quem tenta não se perder:


— Preciso… ou inevitável?


Ele sorriu daquele jeito meio torto, meio perigoso.


— As duas coisas.


E então, o mundo que já estava parado… pareceu parar ainda mais.


Porque quando ele encostou nela, não foi só pele. Foi lembrança. Foi fome. Foi aquela sacanagem silenciosa de quem já conhece o caminho do outro corpo sem precisar perguntar.


As mãos dele, ainda quentes de forno, encontraram a cintura dela com uma intimidade quase indecente. E ela… ah, ela não recuou. Terapeuta nenhuma naquele momento. Só mulher. Só desejo. Só entrega contida por tempo demais.


— Você sabe que isso bagunça tudo… — ela sussurrou perto do ouvido dele, mas não saiu.


— Eu sei… — ele respondeu, descendo a voz pelo pescoço dela como quem deixa marca sem tocar. — Mas também sei que algumas bagunças… são necessárias pra gente se encontrar de novo.


Ela fechou os olhos.


Porque no fundo… ela sabia.


Nem toda saudade é pra matar.


Algumas são pra ensinar.


Algumas são pra atravessar.


E outras… são pra sentir até o limite, até doer bonito… até virar outra coisa.


Quando o mundo voltou a andar, ninguém percebeu nada.


Menos eles.


Porque dentro deles… tudo ainda estava parado naquele encontro.


E talvez…


Era ali que eles realmente existiam.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Hoje eu escolho o perdão.

  Hoje eu escolho o perdão. Não como quem esquece, mas como quem decide não carregar mais. Eu me perdoo por tudo que fiz tentando acertar...