segunda-feira, 23 de março de 2026

Hoje eu parei pra refletir

 

Hoje eu parei pra refletir.

E não foi leve.

Porque enquanto eu tô aqui tentando organizar minha cabeça… minha amiga tá num hospital tirando o útero.
43 anos.
Teve a filha dela em 2019.
E hoje tá lá por causa de mioma e endometriose.

E isso me bateu forte.

Porque eu tô aqui… há anos tentando ser mãe.

E hoje, com 42, eu ouvi de uma médica que talvez eu tenha que fazer uma cirurgia pra parar de sentir dor, pra não menstruar.

E aí veio um filme inteiro.

Eu sempre sonhei com família.
Sempre.

Casa cheia, pai, mãe, filhos… aquilo que pra mim era simples, mas era tudo.

Eu cresci com esse sonho.
E ele só aumentava.

Eu namorei, tive relacionamentos longos…
e sim, muitas vezes sem responsabilidade, sem proteção.

E mesmo assim… eu nunca engravidei.

Nunca.

E eu não entendia.

Hoje eu entendo um pouco mais…
porque meu corpo tem endometriose.
meu corpo tem adenomiose.

Mas antes disso… eu só sentia dor.

Cólica que me paralisava.
Enjoo.
Meu corpo me derrubando… e eu achando que era normal.

Até que eu cansei e pensei:
“vou ser igual minha tia… vou amar meus sobrinhos.”

E foi quando eu comecei a aceitar… que tudo virou.

Uma médica perguntou:
“Você já investigou endometriose?”

Eu achei que não tinha nada a ver comigo.

Mas tinha.

E no meio disso… eu entrei num ambiente novo… conheci pessoas… e comecei a ouvir coisas que machucam.

“40 anos e não é mãe?”
“Vai ficar pra titia…”

Teve um dia num café que falaram isso na minha cara.

Eu respondi… falei que podia ser mãe de coração.

Mas por dentro… eu me senti um lixo.

Porque todo mundo falava de filhos…
e eu não tinha.

Aí eu conheci ele.

Mais novo… mas parecia maduro.
Falava de filho, de futuro…
e eu acreditei.

A gente já tinha algo.
Já existia uma relação.

E mesmo assim… eu ouvi o pai dele falar pra ele:
“vai lá filhão, aproveita… mas usa camisinha.”

Aquilo me atravessou.

Porque eu não era “qualquer uma”.
Eu tava ali… envolvida… acreditando.

Mas mesmo assim… eu continuei.

E a gente se envolveu mais.
Virou relacionamento.

E aí… com 41 anos…
eu engravidei.

Eu fui mãe.

Mesmo que por pouco tempo… eu fui.

E eu perdi.

E o que veio depois foi pior que a perda.

Veio julgamento.

Ele me culpou.
Falou que eu devia ter tomado remédio.
Falou que o erro era não ter usado proteção.

Como se fosse só meu.

Como se ele não estivesse ali também.

E ainda disse que eu não era digna de ser mãe.

Isso me destruiu.

Porque além da dor de perder…
eu tive que carregar culpa.

E eu nunca esqueci de uma coisa:

ele sonhou que eu tirava meu útero e dava na mão dele.

Olha isso.

E ainda disse que ia terminar comigo porque eu “menti”.

Mentir o quê?

Por amar?
Por confiar?
Por acreditar?

E hoje…

vendo minha amiga no hospital…
tirando o útero depois de ter vivido o que eu nem consegui viver direito…

eu só consigo pensar:

quanto custa o sonho de ser mãe?

Porque custa caro.

Custa o corpo.
Custa a cabeça.
Custa a dignidade às vezes.

E às vezes… custa você não ter apoio nenhum.

Porque é mais fácil fugir.
É mais fácil julgar.
É mais fácil tratar como se fosse simples.

Do que ficar.

Do que segurar a mão.

Talvez um dia ele amadureça.
Talvez entenda.

Ou talvez não.

Mas eu sei de uma coisa hoje:

meu corpo tem doença.
mas ele também tem história.

E eu também tenho.

Eu não sou menos mulher por isso.

Mas tem dias… que dói como se eu fosse.

E hoje… foi um desses dias.

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