segunda-feira, 2 de março de 2026

Ela aprendeu cedo que cuidar de gente não é leve

 Ela aprendeu cedo que cuidar de gente não é leve.

Tem noites em que o plantão parece não acabar. O relógio anda, mas o corpo pesa. O café já esfriou na mesa, esquecido entre uma ficha e outra, entre uma dor e outra. E mesmo assim… ela continua.

Porque alguém precisa continuar.

Entre um atendimento e outro, ela respira fundo. Às vezes encosta na parede por poucos segundos, fecha os olhos… e volta. Sempre volta.

Ela conhece o cansaço que mora nos ossos.

Conhece a responsabilidade que aperta o peito.

Conhece o silêncio depois de uma notícia difícil.

Mas também conhece o milagre das pequenas coisas.

Uma melhora inesperada.

Um “obrigada” sussurrado.

Um olhar que volta a ter vida.

E é por isso que ela não desiste.

Ela estudou o corpo, sim. Mas foi no contato com o ser humano que ela aprendeu de verdade. Aprendeu que cada paciente carrega uma história inteira dentro de si. Que nem toda dor aparece em exame. Que, às vezes, o que cura é presença.

E quando o plantão termina… nem sempre termina dentro dela.

Ela chega em casa com o cheiro do hospital misturado ao perfume que passou de manhã. Tira o sapato, solta o cabelo… mas as histórias ainda estão ali. Caminhando com ela. Sentadas ao lado dela.

Às vezes, ela só queria dormir.

Mas tem noites em que ela acende uma vela.

Outras, em que rega suas flores em silêncio.

E tem aquelas em que segura uma xícara de café quente como quem segura a si mesma, tentando se lembrar que também precisa de cuidado.

Porque ela cuida de muitos… mas também precisa se cuidar.

E existe um outro lado dela que poucos entendem.

No terreiro, ela não é chamada pelo diploma.

Ela é chamada pela responsabilidade.

Mãe pequena.

Ali, os filhos de santo chegam com dores que não cabem em palavras. Chegam quebrados, confusos, cansados do mundo. E ela… acolhe.

Às vezes com firmeza.

Às vezes com doçura.

Mas sempre com verdade.

Ela aprende que nem toda cura é rápida. Que nem todo processo é bonito. Que existir também dói — e tudo bem.

Ela segura mãos trêmulas.

Orienta caminhos.

E também aprende, todos os dias, a não carregar o que não é dela.

Entre a medicina e a espiritualidade… ela encontra equilíbrio.

Entre a ciência e o sagrado… ela encontra sentido.

E no meio disso tudo… ela ainda é mulher.

Ela gosta de flores, mesmo sabendo que elas murcham.

Gosta de café, mesmo quando ele esfria.

Gosta de cuidar, mesmo quando ninguém vê quem cuida dela.

Porque no fundo… ela sabe:

Ser quem ela é não é sobre ser forte o tempo todo.

É sobre continuar… mesmo quando está cansada.

E talvez um dia, você encontre com ela.

Num consultório.

Num plantão.

Ou num momento em que sua alma precise mais do que seu corpo.

E você vai perceber…

que não é só técnica.

Não é só estudo.

Não é só fé.

É presença.

E isso…

isso é raro.

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